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À CONVERSA COM...

Entrevista com o Presidente do Departamento de Matemática da U. E., Prof. Augusto José Franco de Oliveira, 55 anos de idade, Professor há cerca de 30 anos, dá  aulas em permanência na Universidade de Évora há quatro anos, embora nos últimos vinte anos tenha sido um colaborador assíduo desta casa. Desde sempre interessado na problemática do ensino, conta já com várias publicações de natureza didáctica. Frequentemente faz conferências em Escolas Secundárias e em diversas Universidades, participa regularmente em encontros ProfMat e na Sociedade Portuguesa de Matemática, onde faz mini-cursos e divulgação de aspectos dos matemáticos pouco usuais. Introduziu e leccionou pela primeira vez em Portugal disciplinas das áreas da Lógica, dos Fundamentos, da Teoria de Conjuntos e da Análise não Standard. 

  

N.E.MAT.U.E.:                    O que levou a vir para Évora? 

Prof. Augusto F. Oliveira:    Há razões positivas e razões negativas. Razões negativas, eu estava descontente com a situação na Faculdade de Ciências, digamos a dificuldade na progressão da carreira e um, aspecto positivo, eu sempre fui bem recebido aqui em Évora, devo dizer por exemplo, que na Faculdade de Ciências durante mais de vinte anos nunca tive um gabinete nem uma secretária, como diversos meus colegas não tinham e enquanto colaborador aqui em Évora nos anos 80 a primeira coisa que fizeram quando cá cheguei foi dar-me a chave de um gabinete e uma secretária, para eu poder estar naqueles dias em que cá vinha, um ou dois dias por semana. Para além do aspecto humano, o ambiente da cidade é muito agradável e muito menos stressante que Lisboa, apesar de nos últimos anos, principalmente neste cargo de Presidente do Departamento, ter excesso de trabalho. O
Departamento tem crescido muito, tem cerca já de 70 docentes, quando nos anos 80 tinha uma dúzia, e gerir um Departamento é talvez o cargo que ocupa mais tempo aqui dentro da Universidade exceptuando, o cargo de Reitor e de Presidente do Conselho Cientifico.

 

N.E.MAT.U.E.:                Das disciplinas que leccionou, qual ou quais, é que gostou mais? 

Prof. A.F.O.:                Em geral gosto de leccionar todas as disciplinas, porque me envolvo, procuro sempre as bibliografias mais actualizadas e mais interessantes, isso é uma pesquisa que dura meses, quando não anos, é uma pesquisa que eu faço em previsão de futuras regências, é um acumular de cultura, leio muito sobre esses assuntos em revistas, leio os catálogos dos livros, leio as apresentações e vou adquirindo alguns, vou recomendando outros para a biblioteca, portanto, em geral eu gosto de todos os cursos que dou, talvez com uma pequenina vantagem para aqueles que são da minha área, da Lógica e Fundamentos, tenho mais paixão por esses por serem da minha especialidade.

 

N.E.MAT.U.E.:                Há quanto tempo é que é Presidente do Departamento? 

Prof. A.F.O.:                Este é o segundo mandato, portanto fui Presidente durante dois anos e agora estou no 3º ano, ficarei mais um ano se não acontecer nada em contrário.

 

N.E.MAT.U.E.:                Ao longo deste tempo tem notado alguma evolução no rendimento dos alunos? 

Prof. A.F.O.:    Tenho notado positivamente nos últimos anos, uma maior motivação e rendimento de alguns alunos dos anos terminais. Por exemplo um aspecto muito positivo, foi que este ano lectivo, a partir de Outubro, concorreram e foram aceites no concurso e entraram para o departamento, 3 ou 4 recém-licenciados aqui pela Universidade, com boas classificações e com muita motivação e muito interesse pelo ensino, e este facto é relativamente invulgar, de que eu tenha conhecimento, nos últimos dez, vinte anos. Também como aspecto positivo nos últimos dois, três anos, verificou-se uma procura dos alunos finalistas da Licenciatura de Matemática Aplicada, por uma maior diversidade de temas para trabalhos de fim de curso. Aqui a alguns anos atrás quase toda a gente escolheria uma única área com um único orientador e actualmente isso já não acontece. Nos outros anos lectivos não noto grandes diferenças, o panorama não é muito diferente do de outras Universidades, o  Departamento de Matemática, nesta Universidade, tem-se debatido com uma falta crónica de docentes, há um défice de dezenas de Docentes que nós devíamos ter de acordo com os números Docente padrão de Docentes contratados, os Docentes contratados são entre vinte e trinta a menos do que deviam ser para o número de Alunos, Cursos e Disciplinas que este Departamento serve nesta Universidade. Esta situação só a partir do ano passado começou a ser colmatada, portanto, os concursos são realizados no princípio deste ano lectivo, para as áreas de Análise, Geometria e para Probabilidades e Estatística, já permitiram colmatar parcialmente este défice, mas ainda há bastante para colmatar. A dimensão destas turmas é em parte, mas só uma pequena parte, responsável pelo menos aproveitamento dos alunos, ou menos frequência dos alunos, os alunos ficam desmotivados quando vêem turmas muito grandes, nas quais não podem participar, nas quais o Professor não pode dar assistência a toda a gente e isso desmotiva bastante. Mas o insucesso tem muitas outras causas e explicações, Em geral os alunos não têm hábitos de estudo quando entram na Universidade e levam tempo a adquiri-los se é que os adquirem. Outro facto que para mim é bastante preocupante é neste edifício ainda não estar a funcionar uma biblioteca decente para os alunos, acho que isso é bastante preocupante a par de nas Licenciaturas em Matemática eu achar que há um excesso de horas de aulas, alguns anos têm quase 30 horas de aulas por semana e não sobra tempo para os alunos estudarem por si, consultarem livros...

 

N.E.MAT.U.E.:                Como presidente do departamento o que é que pensa poder fazer para melhorar o fraco aproveitamento verificado nalgumas disciplinas? 

Prof. A.F.O.:      A melhoria do rendimento dos alunos passa por muitos parâmetros. Alguns parâmetros estão relacionados com o ensino que é feito no nível Secundário, outros, têm de ver com as condições de funcionamento e dimensão das turmas aqui na Universidade, e outros ainda, com a própria qualidade do corpo docente. Todos estes parâmetros têm evoluído embora muito lentamente, no sentido positivo. No caso dos docentes aconteceu um fenómeno nos últimos vinte, trinta anos, que fez com que muitos docentes por motivos de progressão na carreira, se concentrassem bastante na investigação, isso tem efeitos muito positivos, porque ao contrário do que acontecia antes, hoje em dia os nossos docentes, e de outras Universidades portuguesas, publicam regularmente em revistas estrangeiras da especialidade, saindo assim Portugal do isolamento em que se encontrava há trinta anos atrás. Mas isso teve um preço muito elevado. Como as condições dos docentes não melhoraram substancialmente, para se dedicarem à investigação, como é de esperar em qualquer  Universidade, o ensino sofreu um pouco com isso, não há dúvida, que isso, foi um preço elevado a pagar. Mas há também outros parâmetros que dizem respeito aos próprios alunos, como facto de muitas vezes os alunos não poderem frequentar os cursos de que gostam e serem obrigados a frequentar outros cursos, isto à partida é logo muito desmotivante. O caso do desprestígio que tinha a Licenciatura de Ensino, não apenas aqui, como noutras Universidades, que fazia com que fossem para o Ensino aqueles alunos que menos motivação tinham para o Ensino, porque não tinham conseguido entrar nos Cursos da sua preferência, isto cria um ciclo vicioso do qual é muito difícil sair. Ainda no que respeita aos Professores, também por motivos devidos à explosão escolar a partir dos anos 60, o Ministério viu-se na contingência de contratar muitos licenciados de áreas diferentes, engenheiros, economistas, muitas pessoas em cujo curso havia apenas meia dúzia de disciplinas de Matemática, e a verdade é que essas pessoas ao fim de algum tempo se tornaram efectivos e bloquearam o acesso ao ensino Secundário de Licenciados em Matemática, algo que prejudica gravemente o ensino e o nível de competências e de conhecimentos que os Alunos trazem do Secundário, porque não tiveram muitas vezes Professores à altura e com a qualificação devida. O ensino Universitário reflecte todos os problemas que vêm de trás e acrescenta mais alguns.

 

N.E.MAT.U.E.:                Quanto à qualidade de ensino, como é que tem evoluído? 

Prof. A.F.O.:      A qualidade de ensino, tem evoluído positivamente, mas de uma maneira lenta. Suponho, por aquilo que conheço, nestas e noutras Universidades, que nós não temos Professores nem melhores nem piores do que em outras Universidades, também penso que não temos alunos melhores ou piores que noutras Universidades. Muitos problemas que nós sentimos, sobretudo em algumas cadeiras com elevado índice de reprovação, também outras universidades sentem e discutem, desde os Estados Unidos, Inglaterra, França, etc.. Talvez esteja na forja uma outra maneira de ensinar Matemática, ou de levar os alunos a participar no ensino, que passa por uma restruturação dos currículos, e passa por uma maior utilização de programas computacionais ou informáticos, que têm uma função tutorial, isto é, cada aluno frente a um programa devidamente concebido, poderá não apenas aprender, mas também testar os diversos níveis de aprendizagem, e o próprio programa controlaria a passagem ao nível seguinte desde que o aluno estivesse competente no nível anterior. Um dos projectos que temos para este ano lectivo é justamente fazer a restruturação das nossas licenciaturas.

 

N.E.MAT.U.E.:              O que é que acha das precedências, tendo em conta que em determinadas disciplinas, os programas se repetem? 

Prof. A.F.O.:                Isso é o velho problema da falta de coordenação entre alguns Professores. Eu concordo que haverá alguma falta de coordenação, a única maneira de melhorar isso é os Professores reunirem mais frequentemente, para falarem sobre esses assuntos, coisa que é muito rara eles fazerem. Por outro lado, é sempre um pouco inevitável, porque cada Professor gosta de fazer as coisas à sua maneira, não deixar os créditos por mãos alheias e o ensino Universitário tem sempre um pouco de experimentação, de novos assuntos, de novas técnicas e isso por vezes cria uma certa confusão aos alunos, porque tomam por incompetência, aquilo que na verdade é um, aspecto essencial de qualquer experimentação, que é a tentativa e erro. 

Quanto ás precedências, em determinadas cadeiras, as precedências justificam-se, há outros grupos de cadeiras ou cadeiras isoladas em que as precedências não são tão importantes. Certas cadeiras de análise, por exemplo, têm uma sequência lógica e aí as precedências justificam-se. Todavia eu diria que numa estrutura curricular, o número de cadeiras relacionadas entre si por imperativos de precedências, não deveria ultrapassar os 50%.

 

N.E.MAT.U.E.                Qual a sua opinião sobre o actual sistema de avaliação?  

Prof. A.F.O.:      O sistema de avaliação é muito flexível. Há muitos colegas que fazem avaliações contínuas quando o tamanho das turmas o permite, em muitos outros casos recorre-se a exames finais, dentro do esquema dos exame finais há colegas que aplicam estruturalmente o regulamento, há outros que são mais permissivos, facultando ao aluno que vá a uma chamada, desista e vá à segunda chamada, e há ainda colegas que dão ao aluno a probabilidade de ir às duas chamadas, ficando este com a melhor nota, tudo depende da dimensão da turma e da capacidade de diálogo entre o professor e os alunos. 

Em todo o caso, nesta Universidade, parece-me que há demasiado tempo dedicado aos exames, isto é uma crítica ao que se passa na Universidade de Évora, mas também atinge outras Universidades Portuguesas.

 

N.E.MAT.U.E.                Qual será o melhor sistema de avaliação? 

Prof. A.F.O.:    Para mim o melhor sistema de avaliação seria um sistema baseado num contacto permanente professor / aluno, e um exame final contemplando não talvez toda a matéria, mas apenas parte dela. A minha concepção do ensino é uma comunicação estreita entre professores e alunos, num diálogo permanente, e ao longo, desse contacto, o professor vai-se inteirando dos níveis de capacidade do aluno e da nota final que o aluno merece. Em certos países nomeadamente na Alemanha, há certas Universidades em que é o aluno que propõe ao Professor quando se sente preparado para isso, é uma outra forma, mais flexível de avaliar pelo regime de exames e é um exame oral, não há regime de exames escritos. Isto só é possível fazer com turmas pequenas, claro.

 

N.E.MAT.U.E.:                Os cursos de Matemática aplicada e de Ensino de Matemática têm objectivos diferentes, acha que por via disso os currículos de ambos os cursos se devem aproximar ou separar? 

Prof. A.F.O.:                As licenciaturas de ensino, não só em Matemática, mas noutras áreas nasceram de uma maneira pouco reflectida, na prática o que aconteceu foi: pegou-se numa licenciatura científica, deitaram-se fora algumas cadeiras terminais, e substituíram-se por cadeiras pedagógicas, e assim ficou uma licenciatura de ensino. 

Portanto, as Licenciaturas de Ensino nasceram mal, e mal têm estado desde essa altura porque não houve ainda a coragem para mexer nelas deve ser. 

Portanto eu penso que as licenciaturas em ensino deviam ser reestruturação em dois aspectos: no aspecto científico, deviam ser concebidas tendo em conta a especial função do ensino, uma escolha mais criteriosa de assuntos  e de conteúdos, no aspecto pedagógico, talvez um menor peso dessa componente e, tal como já se está a fazer noutros locais, fazer uma Licenciatura Científica em quatro anos e o quinto ano ser um ano para essa componente Pedagógica. 

Aliás, licenciaturas em ensino é uma experiência que alguns países não fizeram, não existe tal coisa por exemplo em França, existem as licenciaturas normais, e depois quem quiser ir para o ensino faz a formação necessária depois de ter concluído a sua licenciatura.

 

N.E.MAT.U.E.:                Este ano é o Ano internacional da Matemática, que iniciativas vai o Departamento promover nesse âmbito? 

Prof. A.F.O.:      O Departamento ainda está em neste momento a programar um conjunto de iniciativas, para além de colaborar com a Sociedade Portuguesa de Matemática, que está a centralizar a nível nacional todas as informações. Está a ser programada uma série de seminários por docentes da casa e docentes convidados, para ocorrer, durante o ano todo. É provável que se realizem em Évora um ou dois encontros de Matemática, ou de Informática, ou de ambas as coisas, mas neste momento ainda não posso adiantar nada sobre esse assunto, Para já, estão a ser feitos os convites e os contactos com as pessoas, a marcação de datas, mas penso que poderemos fazer uma a duas conferências por mês, para assistência livre, para além da colaboração dos nossos orientadores de estágios junto das escolas e eu próprio vou participar nisso.

 

N.E.MAT.U.E.:                Prevê-se que a curto prazo a lei do financiamento do ensino superior seja alterada no sentido em que, o financiamento que cada universidade recolhe é, dado pelo número de alunos que saem e não pelo número de alunos que a frequentam. Que consequências pensa, que isso terá, na qualidade de ensino, nomeadamente nos Cursos de Matemática? 

Prof. A.F.O.:                    Tenho um certo receio dessas medidas, porque há experiências dessas noutros países, por exemplo há experiências dessas no Ensino Secundário em Inglaterra,     para premiar escolas que produzem mais finalistas e com melhor classificação, e então o que acontece é que os Professores deturpam a finalidade dessa experiência, aumentando artificialmente as notas para  à sua escola ficar bem colocada, para que a escola tenha mais subsídios e eles próprios ganharem mais. Portanto todas as medidas dessa natureza que podem ser corrompidas pela própria natureza humana, não são bem pensadas e não devem ser ensaiadas, porque noutros países já foram ensaiadas com resultados exactamente ao contrário daqueles que se pretendiam. Se as condições de admissão, permanência, existência de infra-estruturas, bibliotecas, professores, dimensão das turmas, funcionam não haverá o desperdício que actualmente existe de muitos milhões, mas também haverá a necessidade de implementar medidas como esta.

Janeiro 2000