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À CONVERSA COM...
N.E.MAT.U.E.: Está de partida para Timor. Vai ensinar Matemática? M.A.B.T.: O projecto inicial era esse, mas houve uma mudança na estratégia política. Há alguns dias tive uma reunião com o padre Filomeno Jacob, responsável pela educação em Timor, em que ele explicou que estão a ter grandes problemas, isto é, existe uma grande tensão social em Timor, por dois factores: primeiro, os médicos Timorenses ganham 200 dólares e os médicos estrangeiros que estão lá ganham 10000 dólares. Trabalham todos juntos, fazem todos o mesmo, são pagos pelo Banco Mundial ou pela instituição que está a gerir os fundos do Banco Mundial, o primeiro foco de tensão é esse. O segundo foco de tensão é: eles têm 10000 recém licenciados, ou jovens universitários que não falam, obviamente, uma única palavra em português. O Português esteve proibido a partir de 75, portanto só pessoas aí com mais de 40 anos e sobretudo professores do 1º ciclo é que falam português. Falavam em casa, têm um português um pouco arcaico, mas enfim, falam e escrevem português. 50 %, ou mais, da população de Timor, tem cerca de 18 anos, portanto não falam português, não poderão ocupar os lugares na função pública, na administração pública, etc.,... e então a urgência agora é “pôr” aquela gente a falar português. Era suposto irmos fazer formação de professores, portanto, preparar pessoas para em Outubro começarem a dar aulas, seriam recém - licenciados que nós iríamos preparar para darem aulas em Outubro. Todos os professores que nós chamamos do 3º ciclo do ensino básico, portanto a partir do 6º ano (lá o ensino primário tem 6 anos), eles chamam pré - secundário e secundário, eram indonésios e portanto foi toda a gente embora. Eles têm, penso que 6 professores do ensino secundário, timorenses. E portanto era preciso preparar pessoas para o ensino pré - secundário e secundário. Acontece que a urgência agora é outra, é preciso primeiro combater esta instabilidade, esta revolta entre aspas, daquela gente. Então ao abrirem inscrições para este “curso”, acaba por ser um curso de português e tem 1600 inscritos, nós vamos 21 pessoas, portanto.... Agora estão a haver já muitas acções. Os militares, os médicos, os enfermeiros dão aulas de português. N.E.MAT.U.E.: Então irá também ensinar Português? M.A.B.T.: Exactamente, irei também ensinar português. Não é a minha área, acho que é difícil ensinar português, mas enfim, falo com as pessoas, também não será o português de ensinar gramática a fundo, será o suficiente para falar. Aquilo que eu vou fazer é tentar ensinar português, mas vou socorrer-me de conhecimentos e conceitos da Matemática, porque eles depois também têm que saber matemática em português, digamos assim, porque eles inglês também não falam, têm um inglês muito deficiente, só falam mesmo é o indonésio. N.E.MAT.U.E.: Então uma das barreiras que vai encontrar é a língua? M.A.B.T.: É a língua, mas como “o gesto é tudo” e como a linguagem matemática é universal, em princípio vamos entender-nos. N.E.MAT.U.E.: Que outras dificuldades pensa lá encontrar? Alojamento, alimentação ? M.A.B.T.: Não, alojamento e alimentação, não. Algumas dificuldades, provavelmente em termos de materiais. Nós vamos ter que ser muito criativos, pôr a nossa imaginação a funcionar, porque todos os materiais auxiliares que nós temos cá, lá, obviamente não estão disponíveis ainda, mas acho que é um desafio interessante. N.E.MAT.U.E.: Foi a Universidade que nomeou alguns professores para irem, há algum acordo entre o governo e Timor? M.A.B.T.: Não, isto é uma acção da F.U.P.(Fundação das Universidades Portuguesas). Foi um apelo, feito por Timor, que queria professores Portugueses lá. Entretanto a F.U.P. fez um apelo aos docentes das Universidades Portuguesas para se voluntariarem. Portanto isto é uma acção essencialmente de voluntariado, nós não vamos ganhar nada, nenhuma remuneração adicional. Recebemos o ordenado de cá, pagam-nos as viagens, a estadia e o seguro, o que não é pouco. Nós prescindimos da nossa remuneração adicional, é sempre importante dizer isto. A partir de Outubro em principio as coisas já vão ser diferentes. As pessoas voluntariaram-se. Há Universidades que substituíram os docentes, portanto, há docentes que vão agora e tinham aulas no 2º semestre, eu não tenho aulas no 2º semestre e é por isso que eu vou, se não iria só no Verão, como vão os outros colegas aqui da Universidade de Évora, portanto Julho, Agosto e Setembro, vão cerca de 20 professores aqui da Universidade de Évora. O coordenador é o professor Alexandre Araújo. Houve Universidades em que substituíram os docentes, mas a nossa não tem disponibilidade económica para isso. N.E.MAT.U.E.: A Universidade disponibiliza alguns professores. Que outros apoios deu a Timor? M.A.B.T.: Deram os docentes, quem quis descontou um dia ou dois do seu salário para Timor. Para além disso a Universidade disponibilizou, um portátil, ligado a um telemóvel, porque lá não há linhas fixas, etc. Deu algum apoio aos docentes que vão. Sei que está a ser montado um centro de documentação sobre Timor ou informação técnica sobre Timor, não sei bem o nome, a Universidade está também a colaborar na formação do instituto de formação de professores em Díli, que deve começar em Outubro, em que os cursos vão ser assegurados por professores portugueses e nessa altura então já está prevista a tal remuneração adicional, aí já é diferente. Vai arrancar Economia, algumas Engenharias, isto na Universidade de Évora, e depois um sector da Universidade de Díli será o instituto de formação de professores, vai arrancar com os cursos de ensino de Matemática, ensino de Português, ensino de Física e Química e ensino de Biologia e Geologia, está-se a pensar no ensino de História, só que obviamente os planos curriculares para a História são mais complicados porque a realidade é outra. Já há trabalho feito, a coordenadora aqui da Universidade de Évora é a professora Margarida Amoedo aqui deste departamento. Foi pedido num primeiro momento que as universidades fizessem uma proposta de planos curriculares para essas licenciaturas, foi Timor que pediu, e Timor até pediu “os vossos cursos”, as universidades é que acharam que não deveria ser um decalque, porque as condições são outras. A professora Margarida contactou-me a mim, para a matemática, para fazer uma proposta, obviamente eu sozinha não faria isso, falei com o Professor Franco de Oliveira, porque sozinha não era capaz. Depois as respostas das várias universidades foram para um coordenador nacional de cada curso, portanto as coisas já estão a avançar. Neste momento já deve haver uma proposta para fazer a Timor, que depois fará as adaptações que entender. N.E.MAT.U.E.: Falou-me que vão instalar o curso de ensino de Matemática. Vão daqui alguns professores do departamento de Matemática? M.A.B.T.: Ainda não se sabe. Também será em regime de voluntariado, mas as pessoas que estiverem disponíveis para ir, serão depois requisitadas. Sei que houve uma pessoa do Departamento de Matemática que já se disponibilizou: o doutor Tiago de Oliveira. Não sei se irá no Verão, mas está interessado em ir também em Outubro. N.E.MAT.U.E.: Disse-me há pouco, que a nível de remuneração nesta ida a Timor não se iria ganhar nada. E a nível de progressão na carreira, vai ajudar? M.A.B.T.: Nada. Quem está a fazer mestrado ou doutoramento, este tempo lá, não conta em termos de prazo, é a única vantagem, as pessoas também não poderiam ir prejudicando o seu trabalho, as pessoas têm prazos para cumprir. N.E.MAT.U.E.: Não há qualquer outro incentivo? M.A.B.T.: Não. Nem concordo que haja, se é voluntariado.... N.E.MAT.U.E.: Que expectativas é que tem em relação a Timor? M.A.B.T.: As expectativas são muitas essencialmente em relação às pessoas. Por aquilo que tenho ouvido dizer, as pessoas são extremamente afáveis, têm uma grande ânsia de aprender, estão sempre a perguntar, são super interessadas. Além disso, entre os voluntários que vão, acho que o ambiente vai ser muito bom. Disseram-me que o ambiente que lá se vive entre os voluntários portugueses das várias áreas, militares, polícias, médicos, enfermeiros é muito bom, acho que há um sentido de “entre ajuda” muito grande. Sei por exemplo que uma unidade de infantaria está a reconstruir escolas. Em Díli neste momento há tudo, mas na província, não, portanto as escolas não tinham nem mesas, nem cadeiras. Eles (militares), pouparam na alimentação, com esse dinheiro compraram madeiras e fizeram cadeiras e mesas, claro que a população escolar triplicou em dois dias. Entretanto o Banco Mundial “abriu” as portas do armazém da missão para eles terem madeiras e neste momento eles já equiparam quinze escolas das províncias. Os oficiais estão a ensinar português aos professores primários, portanto o esforço é muito grande da parte de toda a gente, toda a gente faz aquilo que pode e que é preciso. N.E.MAT.U.E.: Acha que os professores que vão para lá, estão preparados para superarem as dificuldades que vão encontrar? M.A.B.T.: Acho que as dificuldades também já não são assim tantas. Por exemplo quanto ao alojamento não há dificuldades, alimentação também não. O alojamento para algumas pessoas seria o mais difícil, porque vão pessoas que não são propriamente jovens e necessitam de uma maior comodidade. Nós vamos ficar num antigo convento, vamos comer à missão portuguesa e portanto as condições são boas. Em termos de trabalho, há poucos materiais, mas eu acho que isso é um desafio e além disso o ambiente entre nós acho que vai ser de camaradagem e portanto acho que vai ser uma experiência boa. N.E.MAT.U.E.: Tiveram ajuda de alguém que vos orientasse na escolha daquilo que têm que levar, que vos desse apoio logístico? M.A.B.T.: Temos algumas reuniões com uma pessoa do Banco Mundial, vai uma timorense connosco e há já uma pessoa no terreno que dará todo o apoio às pessoas que vão. A F.U.P. enquanto instituição, tratou das vacinas e de toda a questão logística. O material é preciso enviar primeiro, porque nós só podemos levar 20 kg e é impensável irmos por exemplo com livros. Já mandamos alguns livros, não muitos por causa do peso e além disso o ministério já mandou para lá muitos livros e a Universidade Aberta está a montar um centro de documentação em Díli e outro em Baucau, portanto, livros para esta primeira fase chegam. Eles pedem para não se enviar mais livros porque não têm onde os pôr. N.E.MAT.U.E.: Disse-me há pouco que a população escolar triplicou. Então os professores que vão de cá para lá não são certamente em número suficiente. O que é que acha que se pode fazer para mudar isso? M.A.B.T.: De facto os professores não chegam. Sei que foi feito um apelo pela F.U.P. aos reitores, para que fossem mais 3 docentes de cada Universidade. Que eu saiba não surgiu mais ninguém. N.E.MAT.U.E.: Se surgirem outras oportunidades deste tipo irá aproveita-las? M.A.B.T.: Vou com certeza, desde que a Universidade me deixe ir , eu vou.
À data de publicação desta entrevista, já a Dr.ª Maria André Trindade terá partido. Da nossa parte desejamo-lhe muitas felicidades e aguardaremos que regresse para que nos conte a sua experiência em Timor.
Entrevistadores membros do NEMATUE: Nuno Carreira e Elisabete Alexandre (M.E.- 4º ano) |